Garrafa de Fleurie Origines 2022, de Grégoire Hoppenot, ao lado de quatro queijos artesanais brasileiros empilhados sobre mesa de madeira
N.º VII — degustação

Um Fleurie e Quatro Queijos Brasileiros

Uma tábua inteiramente brasileira, uma garrafa francesa — e o que aconteceu quando se encontraram.

17 julho · 2026 · leitura de 5 minutos · por Leandro Lima

Perto de onde corto o cabelo, em Perdizes, há uma pequena loja de produtos artesanais brasileiros com uma bela seleção de queijos. Em uma das visitas, a dona da loja me guiou por uma breve degustação — e saí de lá tentado por uma ideia: montar uma tábua apenas com queijos artesanais brasileiros.

Fiquei feliz em ver o quanto a produção nacional evoluiu em qualidade nos últimos anos. Se pararmos para pensar, até pouco tempo atrás, falar de queijo brasileiro era falar de Canastra, Minas frescal, requeijão e Catupiry. Hoje há centenas de pequenos produtores fazendo queijos muito interessantes, que nada têm a perder para os importados.

Minha seleção foi esta:

Lá de Madre
Fazenda Santa Mônica · Madre de Deus de Minas, Campo das Vertentes, MG

Massa semicozida, 100% leite de vacas Jersey, curado por 12 meses. Um queijo cremoso, untuoso e muito saboroso.

Bucaneve
Queijaria do Chico · Cássia dos Coqueiros, SP

Produzido em estilo Brie, com leite de vaca pasteurizado. Sabor delicado, interior cremoso, em uma peça pequena de 370 g.

Ilha Segura
Queijaria La Porta, Fazenda Santa Helena · Belmiro Braga, MG

Estilo Parmesão, feito de leite cru e longa maturação, com cristais em sua massa. Muito saboroso, adocicado e de boa presença em boca.

Cuesta
Pardinho Artesanal · Pardinho, SP

Leite cru de vacas Gir alimentadas a pasto, oito meses de maturação sobre prateleiras de madeira em caves subterrâneas. Notas adocicadas, amendoadas e terrosas.

Os quatro queijos brasileiros dispostos em prato de cerâmica: Bucaneve de casca branca, Lá de Madre, Ilha Segura e Cuesta
Quatro produtores, quatro estilos — e diferentes expressões de leite, maturação e território.

Não são cópias menores de queijos europeus. Mesmo quando partem de estilos reconhecidos internacionalmente, encontram outra expressão no leite, no clima, na alimentação dos animais e no trabalho de cada produtor. À mesa, o queijo brasileiro já não precisa entrar como coadjuvante.

Para acompanhar a tábua, minha primeira opção seria um branco — provavelmente um Vouvray meio doce, de Chenin Blanc. Mas fazia frio. Resolvi abrir um tinto, e uma das melhores opções para tábuas de queijo de intensidade média costuma ser Beaujolais.

Escolhi o Fleurie Origines 2022, de Grégoire Hoppenot: um Cru de Beaujolais sedoso e perfumado, de fruta fresca, boa acidez e taninos delicados. Um ótimo vinho. Mas será que ele acompanharia bem os quatro queijos?

Close do rótulo do Fleurie Origines 2022, Domaine Grégoire Hoppenot, com a tábua de queijos desfocada ao fundo
Fleurie Origines 2022, Domaine Grégoire Hoppenot — um Gamay de Beaujolais sedoso e perfumado.

Não exatamente. E é aí que a coisa fica interessante.

Com o Bucaneve, o encontro foi excelente: a acidez e a leveza do vinho refrescaram a cremosidade do queijo sem apagar sua delicadeza. Com o Lá de Madre, outro grande acerto — o vinho teve intensidade suficiente para acompanhar a untuosidade e o sabor mais desenvolvido do queijo.

O Ilha Segura foi bem, com ressalvas. Por sua longa maturação e presença em boca, o queijo se sobrepôs um pouco ao vinho, embora o conjunto tenha funcionado. Já com o Cuesta houve maior disputa: as notas terrosas e a estrutura do queijo ressaltaram um leve amargor no final do vinho. Nada que comprometesse a garrafa — muito agradável, madura e boa de se divertir — mas um lembrete de que uma mesma combinação muda completamente conforme a textura, a maturação e a intensidade de cada queijo.

Harmonizar não é procurar uma resposta certa.
É observar o que muda quando vinho
e comida se encontram.
Tábua de madeira com os queijos fatiados: Bucaneve, Lá de Madre, Ilha Segura e Cuesta prontos para a degustação
A tábua pronta — e a prova de que nem toda harmonização precisa ser perfeita para valer a mesa.

Não é sobre obedecer regras antigas de que "tinto não harmoniza com queijo". É sobre entender textura, acidez, gordura, maturação e, principalmente, contexto. Às vezes, vinho e comida falam a mesma língua. Em outras, um deles fala um pouco mais alto.

Os queijos estavam todos muito bons — e fica a dica para quem ainda não deu atenção aos excelentes queijos artesanais brasileiros. Uma boa garrafa pode viajar da França ao Brasil sem perder identidade. E um bom queijo brasileiro não entra em cena como coadjuvante.

Da próxima vez, tento harmonizar com um vinho brasileiro.

L.L.

São Paulo · 17 de julho de 2026 Caderno I · N.º VII