Perto de onde corto o cabelo, em Perdizes, há uma pequena loja de produtos artesanais brasileiros com uma bela seleção de queijos. Em uma das visitas, a dona da loja me guiou por uma breve degustação — e saí de lá tentado por uma ideia: montar uma tábua apenas com queijos artesanais brasileiros.
Fiquei feliz em ver o quanto a produção nacional evoluiu em qualidade nos últimos anos. Se pararmos para pensar, até pouco tempo atrás, falar de queijo brasileiro era falar de Canastra, Minas frescal, requeijão e Catupiry. Hoje há centenas de pequenos produtores fazendo queijos muito interessantes, que nada têm a perder para os importados.
Minha seleção foi esta:
Massa semicozida, 100% leite de vacas Jersey, curado por 12 meses. Um queijo cremoso, untuoso e muito saboroso.
Produzido em estilo Brie, com leite de vaca pasteurizado. Sabor delicado, interior cremoso, em uma peça pequena de 370 g.
Estilo Parmesão, feito de leite cru e longa maturação, com cristais em sua massa. Muito saboroso, adocicado e de boa presença em boca.
Leite cru de vacas Gir alimentadas a pasto, oito meses de maturação sobre prateleiras de madeira em caves subterrâneas. Notas adocicadas, amendoadas e terrosas.
Não são cópias menores de queijos europeus. Mesmo quando partem de estilos reconhecidos internacionalmente, encontram outra expressão no leite, no clima, na alimentação dos animais e no trabalho de cada produtor. À mesa, o queijo brasileiro já não precisa entrar como coadjuvante.
Para acompanhar a tábua, minha primeira opção seria um branco — provavelmente um Vouvray meio doce, de Chenin Blanc. Mas fazia frio. Resolvi abrir um tinto, e uma das melhores opções para tábuas de queijo de intensidade média costuma ser Beaujolais.
Escolhi o Fleurie Origines 2022, de Grégoire Hoppenot: um Cru de Beaujolais sedoso e perfumado, de fruta fresca, boa acidez e taninos delicados. Um ótimo vinho. Mas será que ele acompanharia bem os quatro queijos?
Não exatamente. E é aí que a coisa fica interessante.
Com o Bucaneve, o encontro foi excelente: a acidez e a leveza do vinho refrescaram a cremosidade do queijo sem apagar sua delicadeza. Com o Lá de Madre, outro grande acerto — o vinho teve intensidade suficiente para acompanhar a untuosidade e o sabor mais desenvolvido do queijo.
O Ilha Segura foi bem, com ressalvas. Por sua longa maturação e presença em boca, o queijo se sobrepôs um pouco ao vinho, embora o conjunto tenha funcionado. Já com o Cuesta houve maior disputa: as notas terrosas e a estrutura do queijo ressaltaram um leve amargor no final do vinho. Nada que comprometesse a garrafa — muito agradável, madura e boa de se divertir — mas um lembrete de que uma mesma combinação muda completamente conforme a textura, a maturação e a intensidade de cada queijo.
É observar o que muda quando vinho
e comida se encontram.
Não é sobre obedecer regras antigas de que "tinto não harmoniza com queijo". É sobre entender textura, acidez, gordura, maturação e, principalmente, contexto. Às vezes, vinho e comida falam a mesma língua. Em outras, um deles fala um pouco mais alto.
Os queijos estavam todos muito bons — e fica a dica para quem ainda não deu atenção aos excelentes queijos artesanais brasileiros. Uma boa garrafa pode viajar da França ao Brasil sem perder identidade. E um bom queijo brasileiro não entra em cena como coadjuvante.
Da próxima vez, tento harmonizar com um vinho brasileiro.