Taça de vinho tinto ao lado de caderno de estudos aberto com anotações e desenhos de uvas, em luz baixa e quente
N.º VI — ensaio

Aprendendo a Ler o Vinho

Estudo, percepção e a alfabetização do paladar.

15 julho · 2026 · leitura de 4 minutos · por Leandro Lima

Existe uma fase da vida em que já compreendemos a linguagem, ainda que parcialmente, mas ainda não sabemos ler.

Temos seis ou sete anos e estamos prestes a entrar na primeira série, pouco antes de sermos alfabetizados. Em breve, nossa vida mudará de maneira radical. Em poucos meses, reunindo letras, sons e palavras, começamos a entender as primeiras frases escritas. Ganhamos autonomia e, de repente, uma nova janela se abre diante de nós.

Essa janela transforma nossa percepção do mundo, embora, naquele momento, ainda não tenhamos consciência da importância e da beleza dessa transformação.

Aprender sobre vinhos — e, principalmente, aprender a degustá-los — é, em certa medida, como aprender a ler. Ou como aprender uma nova língua.

Não é preciso ser letrado em vinhos para apreciá-los. E, provavelmente, se você está lendo este texto ou tem interesse em estudar o assunto, é porque já gosta deles. Mas a experiência se amplia quando deixamos de ser apenas consumidores e assumimos a atitude de quem deseja aprender.

Quando aprendemos a ler, um novo mundo não é exatamente criado. As pistas já estavam por toda parte: letras agrupadas em placas, rótulos, livros e jornais. O que muda é a nossa capacidade de compreendê-las. É o nosso entendimento do mundo que se transforma.

Com o vinho, acontece algo parecido.

Os taninos, os aromas, a acidez, a textura e o peso já estão na taça. O que muda, com o estudo e o treino, é a nossa capacidade de percebê-los, organizá-los e interpretá-los.

A linguagem amplia o vocabulário, e um vocabulário mais rico amplia também a percepção.

Pense, por exemplo, nas palavras que alguém de um país tropical costuma usar para descrever a neve. Talvez diga que ela é branca, fria, gelada ou úmida. Em regiões onde a neve faz parte da vida cotidiana durante boa parte do ano, é natural que existam termos mais precisos para distinguir a neve recém-caída, a neve compactada, a neve que começa a derreter ou aquela que se mistura à chuva.

Quanto mais íntima é a experiência, mais específica tende a se tornar a linguagem.

Com o vinho, ocorre o mesmo.

Uma pessoa pode distinguir facilmente um vinho frutado de outro que não seja. Mas quais frutas aparecem ali? São vermelhas ou negras? Frescas, maduras ou passadas? Lembram cerejas, amoras, mirtilos ou framboesas?

Quem desenvolve esse vocabulário passa a reconhecer nuances que antes poderiam parecer indistintas. A linguagem não substitui a experiência sensorial. Ela ajuda a organizá-la.

Há certo receio de parecer ridículo ao usar descrições específicas, como "cerejas maduras". Mas isso depende da maneira como compreendemos essa linguagem.

Os descritores são sempre aproximativos. Não são traduções literais do vinho, mas tentativas de nomear semelhanças sensoriais. Em muitos casos, há inclusive compostos aromáticos presentes tanto no vinho quanto em frutas, flores, ervas e vegetais. Essas associações, portanto, não são apenas metáforas escolhidas ao acaso.

Como dissemos, ninguém precisa estudar vinhos para gostar deles. Mas é possível ir além do simples "gostei" ou "não gostei".

Quem estuda deixa de perguntar apenas "gostei?" e começa a perguntar "por que gostei?".

O que existe nesse vinho que me atrai? De onde vem essa sensação de peso? Do álcool, da concentração ou da textura? O vinho está equilibrado? O tanino vem apenas das cascas e sementes ou pode haver influência dos engaços? O tempo modificou a bebida? De que maneira?

As perguntas não diminuem o prazer. Elas aprofundam a experiência.

Há quem imagine que estudar vinhos nos colocará em um estado permanente de alerta, transformando cada momento de descontração em um exercício técnico. Não é assim — ou, ao menos, não precisa ser.

Aprender sobre vinhos é enriquecer a experiência. É acrescentar camadas de significado ao que bebemos.

Não se trata apenas de decorar regiões, uvas, safras e tipos de solo. Trata-se de treinar o olhar — ou, mais precisamente, o olfato e o paladar — para perceber aquilo que já estava diante de nós.

Não é o que está na taça que muda.

Somos nós que mudamos durante o processo.

É como estudar uma nova língua e, algum tempo depois, entrar no metrô de um país estrangeiro. De repente, o ouvido parece se abrir para uma frequência que antes não alcançava. Palavras começam a se destacar em meio aos sons, pequenas frases se tornam compreensíveis e algo que antes passava despercebido começa a revelar sentido.

Aprender a ler o vinho é também aprender a prestar atenção.

E, nesse processo, há muito mais a ganhar do que a perder.

L.L.

São Paulo · 15 de julho de 2026 Caderno I · N.º VI